24 de março de 2014

A Infância

Como posso descrever esta fase da minha vida, senão me recordo de a ter vivido?
Pior do que não me lembrar dela, é o facto de esta nem sequer ter existido. Não guardo uma única lembrança (boa).
Sabes, aquelas que recordamos com saudade, quando recuamos no tempo…É como se essa fase da minha vida tivesse simplesmente saltado no tempo.
O teu avô batia-nos…As tareias que dava à tua avó…Meu Deus, não sei como ela sobreviveu todos estes anos.
A tua avó casou por vingança.
Um arrufo com o namorado na altura, fez com que o teu avô se aproximasse dela. Ela é uma pessoa muito orgulhosa, sempre foi. Nunca dá o braço a torcer, seja em que situação for. Esse homem, a quem me recuso a chamar de pai, conseguiu o que finalmente queria…Casar com a tua avó.
Casaram na boca do inferno, ironia do destino, porque, não é que a vida dela foi mesmo um inferno?!
Na primeira semana de casada, deu-lhe uma tareia que a ia matando. Até hoje culpo a tua bisavó pelo facto de não a ter tirado de casa. Em vez disso, incentivava-a a ficar ao lado dele, dizendo-lhe que seria um desgosto se esta se separasse…E o falatório que seria, caso ela o fizesse.
O teu tio nasceu dezasseis meses antes de mim…
Os anos foram passando, as tareias sucediam-se, e a vontade de viver era escassa ou nula.
Mas antes de avançar, vou-te contar como eu nasci. Partilho isto contigo, porque quero que tenhas consciência daquilo que nunca se deve fazer ao próximo.
Que devemos respeitá-lo, amá-lo e aceitar as pessoas tal como elas são, sem no entanto, passar por cima delas.


Se fores menino, que sejas o oposto deste homem. Que respeites as mulheres, e que jamais uses a violência, seja em que circunstância for.
Se fores menina, não deixes que isto te aconteça…Não te menosprezes, não aceites a violência…
De qualquer das formas, estarei aqui para te defender, com todas as armas que estiverem ao meu  alcance.
Vou recuar um pouco, para perceberes como fui concebida, para me conheceres por dentro e por fora…Para poderes também compreender as minhas fraquezas, para saberes, de onde vem a minha mágoa, e porque me doem as cicatrizes que carrego na minha alma.
No meio de mais uma discussão como tantas outras, a tua avó disse que o teu tio, era só filho dela…O teu avô, agarrou nela, e enquanto a espancava, violou-a, gritando que ela ia engravidar e que seria uma menina…
E aqui estou eu…O homem parece que tinha um pacto com o diabo.
Nasci fruto de uma agressão, não fui desejada, e jamais fui amada.
Não fui concebida com amor…Fui gerada com raiva, dor, e uma tristeza tremenda.
Sempre que a tua avó engravidava, ele dava-lhe tareias, para que ela abortasse. Agredia-lhe na barriga, para que a gravidez não avançasse.
-Loucura?
Não, a mim parece-me uma palavra demasiado branda, para estes actos tresloucados…
Sinto que a tristeza foi o único alimento que tive na barriga da tua avó.
À medida que fui crescendo, cresceu também a frustração…Duas mulheres que deveriam ser unidas, tornaram-se estranhas.
Cresci a pensar e a sentir, que ela não gostava de mim. Discutíamos muitas vezes.
Essa mulher sofrida, a minha mãe, sempre teve preferência pelo teu tio. Quando lhe confrontava com isso, ela não reconhecia…Mas não era preciso fazê-lo, pois tantas vezes me foi dito que ele era melhor do que eu em tudo.
Dizia-me que eu, era igual ao meu pai.
-Eu?
Que injustiça. Como me podia ela castigar dessa forma?
Era eu que não dormia durante a noite, com medo que o meu pai lhe fizesse mal. Conseguia ouvi-la a ir a casa de banho, nada de especial, não fosse o pormenor de esta ir descalça.
Era eu que me vestia e ia á procura dela, quando esta ia as compras e demorava muito…com medo que lhe tivesse acontecido algo.
Era eu, que lhe tentava fazer as vontades todas, mesmo quando estas não eram do meu agrado, só para a ver ter um momento de alegria.
Era eu que a mimava, apesar de ela não gostar de mimos.
Era eu que me preocupava com ela, como nunca ninguém se preocupou, e era, precisamente eu…que não valia rigorosamente nada.
Sempre tive dificuldade em dormir. Posso dizer-te de que não me recordo de alguma vez a tua avó não me chamado para eu ir para a escola, porque já me encontrava acordada e ia acordar o teu tio.
As minhas noites eram envoltas de pânico e a minha única companhia, era o relógio…As horas iam passando, e a insónia não me dava tréguas.
Falava muitas vezes com Deus. Questiona muitas vezes a razão por que este me deixou viver…Isto porque no momento em que eu estava para nascer, tinha havido uma oportunidade única de ELE me ter deixado partir…
A tua avó, quando rebentou as águas e começou com as dores, chamou o teu avô, para a levar para o hospital…
Tratou-a mal para variar, e mandou-a esperar, porque ainda ia jantar…
Jantou e só depois foi chamar ajuda…
A minha mãe, teve-me sozinha. Cortou, atou o cordão umbilical…
Ela ficou mal. O meu irmão estava com sarampo, enrolado num cobertor…A minha mãe, via-nos no tecto…
Os bombeiros quando chegaram, não queriam acreditar…Parecia que tinha tomado banho…Mas não, nem esse trabalho dei à minha mãe.
O teu avô perdeu a mãe durante o parto…e um irmão…Eram trigémeos…
Lamentou-se a vida toda que não conheceu a mãe…E depois, tem uma atitude destas, onde ambas podíamos ter morrido…
Um milagre feito por ELE… Devo-lhe a vida.
Lembro-me de duas tareias que me perseguem até hoje…Uma delas, foi quando morava na casa da minha madrinha. Morava numa vivenda, no rés-chão. A discussão começou quando o meu pai resolveu fazer obras na casa-banho, sem consentimento da minha madrinha. A minha mãe quando chegou, e viu a casa-banho naquele estado, chamou-lhe a atenção, e claro, gerou uma discussão…Pensei que ele iria matar a tua avó…Essa tareia massacra-me até hoje.
O meu irmão foi o primeiro a levantar-se, escusado será dizer que foi agredido.
Eu paralisei na cama. O corpo não me obedecia…Tremia dos pés à cabeça…
Quando finalmente consegui, assim que cheguei á cozinha, só me lembro de ter levado um pontapé, que só parei quando bati na porta da rua…
Tanto sangue…misturado com o leite derrubado de um fervedor…
Deu-lhe uma tareia tão grande, que eu pensei, que era desta que ficava sem mãe.
Partiu-lhe a cana do nariz… Quando ela ia desmaiar, agarrou num alguidar com água, e atirou-lhe para cima…
Trancou-nos dentro de casa…A janela era demasiado grande para saltarmos…
Ao final do dia, lembro-me de ter aparecido lá um tio meu…Não sei como…Quando viram a irmã naquele estado, só lhe perguntaram se ela queria que lhe fizessem uma espera…
Ela não quis…Com medo do que viesse depois, não sei…Só sei que não nos tiraram de lá.
Não a levaram ao hospital…A tua bisavó, nem me lembro de a ter visto…
Outra tareia que marca a minha existência, foi quando a tua avó foi queimada com uma tampa de panela de pressão. A pele toda agarrada á tampa…Ela caída no chão, e ele em cima dela, pisando-lhe o corpo e a cabeça com uma frieza…
Meu anjo, quando te sentires perdido, desanimado, não deixes que o rancor te domine ou que o ódio tome conta de ti…
Que a minha história, te sirva de exemplo, um exemplo daquilo que não queremos ser…E que independentemente dos obstáculos que a vida te ponha à frente, jamais te tornes num ser amargo.
Voltarei mais tarde, a tocar no assunto, porque ainda há muito a dizer.
Por agora, fico por aqui…
Um beijo do tamanho do mundo de alguém que te ama muito.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. So vou comentar para lhe dar força, e dizer lhe para tentar esquecer, porque reviver estes momentos deve ser doloroso, frustrante, Não ha palavras para descrever a sua experiencia de vida. Desejo lhe muita força, mais ainda :)

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    1. Olá Marta. Só agora me foi possível responder. Obrigada pelas palavras... Pela força...beijinho grande e que a vida lhe possa sorrir... Sempre.

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